“Se você perguntar, é possível zerar o desmatamento e manter uma produção agropecuária do mesmo nível de hoje? Sim, é totalmente possível!”
Carlos Nobre, climatologista do INPE – Ouça um trecho do episódio:

Cacalos Garrastazu

O EFEITO SOJA

A expansão agrícola em escala comercial é, hoje, o maior impulsionador do desmatamento em todo o mundo e, consequentemente, também das emissões de gases de efeito estufa decorrentes da mudança no uso da terra. A conclusão é do relatório “Illicit harvest, complicity goods: the state of ilegal deforestation for agriculture”, produzido pela Forest Trends, organização sem fins lucrativos fundada em 1998 e sediada em Washington, DC.

60
da perda de floresta tropical global entre 2013-2019 estão ligados à agricultura comercial
69
da conversão de florestas tropicais em agricultura violaram leis e regulamentações nacionais
93
das áreas de floresta convertidas para agricultura comercial destinam-se à produção de soja
28
é o aumento da taxa de desmatamento ilegal para agricultura entre 2013 e 2019

Veja como está distribuída a área de florestas tropicais convertidas para agricultura com violação de leis nacionais pelo mundo (2013-2019)

Perda total de floresta
75% a 100% de floresta convertida para agricultura com violação de leis nacionais
50% a 74% de floresta convertida para agricultura com violação de leis nacionais
25% a 49% de floresta convertida para agricultura com violação de leis nacionais
0% a 24% de floresta convertida para agricultura com violação de leis nacionais

Dados disponíveis sobre legalidade:

Alta
Média
Baixa

Fonte: Forest Trends Report Maio 2021

Há 50 anos, uma edição especial da extinta revista Realidade publicada em outubro de 1971 trazia anúncios sobre uma Amazônia que estava sendo desbravada por empreiteiras, fazendeiros e governos. Com as obras da Rodovia Transamazônica como ponto de partida, a publicação de 328 páginas já abordava a destruição da floresta, a sabedoria dos povos originários e explicava como a natureza tentava defender o ambiente da ação do homem.

Anúncios do governo atraíam fazendeiros para a Amazônia na década de 1970

Reprodução/ Hemeroteca Biblioteca Nacional

Na propaganda da Sudam, o governo brasileiro já convidava fazendeiros a levarem seus rebanhos para a Amazônia. “A terra é barata e sua fazenda pode ter todo o pasto que os bois precisam”, dizia o anúncio, no qual o governo prometia incentivos e financiamento para quem levasse o gado para a região.

Cacalos Garrastazu/Eder Content
Gado em área desmatada na região de Novo Progresso (PA); quarta cidade mais desmatada da Amazônia, rebanho bovino cresceu 10% entre 2015 e 2020

Passadas cinco décadas, o município de São Félix do Xingu (PA) tem o maior rebanho bovino do Brasil. São 2,4 milhões de cabeças de gado. Com uma população estimada em 135 mil habitantes, tem mais bois do que moradores na cidade. São 18 cabeças de gado por habitante.

Não por acaso, São Félix do Xingu está entre os campeões de desmatamento: é a segunda cidade da Amazônia com maior área desmatada, segundo o Prodes (Projeto de Monitoramento da Floresta Amazônica Brasileira por Satélite). Perde apenas para Altamira, também no Pará.

Ao cruzarmos o ranking do Prodes das dez cidades que mais desmataram em 2020 com os números do IBGE sobre o rebanho bovino nas mesmas localidades, comprovamos que houve um aumento de quase 500 mil cabeças de gado nesses municípios.

Episódio em imagens

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