“Na Terra Indígena Sawré Muybu, deu um nível muito grande de mercúrio no sangue das pessoas. Foi bem preocupante, e antes de o resultado sair, morreram duas crianças com um nível bastante alto de mercúrio.”
Beka Munduruku, 19 anos. Ouça um trecho do episódio:

Cacalos Garrastazu

O CERCO DO OURO

À primeira vista, elas parecem casas flutuantes feitas de metal. Mas basta olhar com atenção para perceber que há guindastes e tubos enormes acoplados a essas estruturas metálicas que podem ser avistadas nos mais variados pontos do rio Tapajós. São balsas com dragas utilizadas para vasculhar o leito do rio em busca de ouro

Elas estão por todos os lados que se olhe: nossa equipe viu balsas flutuantes com dragas de garimpo em operação no Tapajós nas proximidades de Itaituba, do porto do Buburé, perto da aldeia Sawré Muybu e ao longo da extensão da TI Sawré Muybu. 

Em geral, as balsas têm estruturas de madeira e equipamentos que não são baratos: chegam a custar cerca de R$ 100 mil. Funcionam 24 horas por dia, com motores barulhentos que consomem pouco mais de 200 litros de diesel por dia. Apenas com combustível os gastos podem chegar a R$ 4 mil por semana.

De acordo com um estudo liderado por pesquisadores do Comitê Nacional em Defesa dos Territórios frente à Mineração, o surto de garimpo registrado nos territórios Munduruku em 2020 -e em outras TIs da Amazônia e terras brasileiras- está diretamente ligado ao aumento do preço do ouro.

“A alta está relacionada, sem dúvida, à pandemia de Covid-19 pelo caráter mais seguro que esse metal apresenta frente à volatilidade dos preços das moedas”, afirmam os autores da publicação O cerco do ouro: garimpo ilegal, destruição e luta em terras Munduruku, lançado em 2021.

A explosão dos garimpos nos territórios do povo Munduruku fica clara no mapa abaixo, produzido pelo InfoAmazônia, que aponta o aumento da atividade garimpeira ilegal especialmente no Alto Tapajós, descendo até o Médio Tapajós e aproximando-se da TI Sawré Muybu e da aldeia da Beka.

Fonte: Infoamazonia

Garimpo ilegal em terras indígenas explodiu entre 2010 e 2020

Área garimpada em TIs aumentou 495% em uma década; em unidades de conservação, alta foi de 300%

A explosão do garimpo na Amazônia brasileira foi medida num estudo do Mapbiomas que aponta o aumento exponencial da atividade garimpeira ilegal dentro de terras indígenas e também em unidades de conservação. Nos dois casos, a mineração é proibida por lei e constitui crime.

Em 2020, o levantamento indicou que metade da área total minerada no Brasil é ilegal: quase 10% estão localizadas dentro de terras indígenas e 40% dentro de unidades de conservação. “Mesmo que soubéssemos que o garimpo estava pulverizado por toda a Amazônia, a dimensão do problema assustou até mesmo a nós, especialistas experientes”, resume César Diniz, que coordena o Mapeamento Anual do Uso e Cobertura da Terra no Brasil realizado pelo MapBiomas.

A destruição causada pelo garimpo na Amazônia pode ser vista do espaço

Reprodução/Mapbiomas

Reprodução/Mapbiomas

“Estima-se que o garimpo despejou 130 toneladas de mercúrio na Amazônia brasileira, e é possível que esse volume esteja bem maior desde o início do governo Bolsonaro. E esse mercúrio vai parar nos rios, nos peixes e na população local.”

Marcelo Oliveira, especialista em conservação da ong WWF

Episódio em imagens

Cacalos Garrastazu / Eder Content