“Meu povo Yudjá diz que as borboletas seguram o céu. Se o branco continuar querendo acabar com a floresta, os animais vão morrer, principalmente as borboletas, e aí o céu vai cair sobre nós.”
Anita Juruna, 19 anos

Cacalos Garrastazu

BEKA NÃO ESTÁ SOZINHA

Quarenta anos depois de lideranças indígenas ocuparem comissões da Assembleia Nacional Constituinte, em 1987, os povos originários retornaram a Brasília para defender seus direitos à terra, aos seus costumes, línguas, crenças e tradições conforme foi determinado pela Constituição Federal promulgada em 1988.

Muitos dos nomes que se tornaram reconhecidos internacionalmente hoje são anciãos com idade avançada, como o cacique Raoni Metuktire, ou foram vítimas da Covid-19, como Paulinho Paiakan, que faleceu em junho de 2020. Ambos estiveram entre os mais combativos defensores da inclusão dos direitos indígenas na Constituição.

Entre eles, havia um jovem líder da etnia Krenak que discursou na tribuna do Congresso enquanto cobria o rosto com tinta preta de jenipapo. Era o filósofo e escritor Ailton Krenak.

Em plena pandemia de Covid-19, são os netos das lideranças históricas dos povos indígenas que acamparam em Brasília para resistir às iniciativas do governo Bolsonaro e de parlamentares para mudar a Constituição pela qual seus ancestrais lutaram.

Beptuk Metuktire, 18, e Nhãkaykep Paiakan, 20, sucedem seus avôs nos levantes indígenas realizados em Brasília em 2021. Assim como Beka, 19, a neta que o cacique Juarez Saw Munduruku sonha em ver sucedê-lo como liderança de seu povo. Os três integram uma nova geração de jovens lideranças indígenas cujas vozes são potencializadas pelas ferramentas e plataformas digitais.

Abaixo, lideranças históricas dos povos indígenas na Assembleia Nacional Constituinte, em Brasília, em 1987 (alto, à esq); Beptuk Metuktire, neto do cacique Raoni (alto, à dir); Nhãkaykep Paiakan, neta do cacique Paulinho Paiakan (abaixo, à esq) e Beka Munduruku (abaixo, à dir).

Beto Ricardo/ ISA

Reprodução/ Instagram

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Letícia Valverdes

3 Perguntas para Alana Manchineri

Mobilizadora da Rede de Jovens Comunicadores da COIAB

Amazônia Invisível: Como surgiu a rede de comunicadores indígenas?

Alana Manchineri: Já vinha-se trabalhando dentro da Coiab, dentro das organizações de base, a perspectiva da importância da comunicação, principalmente porque sofremos em 2018 com as fake news, e em 2019 com o presidente Bolsonaro falando que quem faz queimada, quem estimula o desmatamento são os povos indígenas e as comunidades locais. A Coiab percebe a necessidade de ter uma comunicação de fato feita pelas populações indígenas que alcance as populações indígenas de um modo geral. Só na Amazônia temos mais de 180 povos, fora os povos em isolamento voluntário. Há uma diversidade de línguas aqui na Amazônia e nós indígenas sabemos como nos comunicar com nossos parentes.

 

AI: Qual é o treinamento que esses comunicadores recebem?

Alana: Num primeiro momento, a gente fez uma formação para 31 jovens comunicadores, dos nove estados da Amazônia brasileira, representando mais de 28 povos. Fizemos várias formações: em comunicação e incidência política, formação contra violência de gênero, fizemos formações sobre a própria covid-19 com a Fiocruz. Produzimos material em seis línguas indígenas nesse primeiro momento, em vídeo, em áudio, em card para alcançar de qualquer forma as nossas populações. E isso teve um impacto muito positivo, nós sentimos que é diferente a comunicação quando ela é pensada e feita por nós, povos indígenas, de uma comunicação que é feita por um não-índigena. Porque a gente sabe o que podemos fazer para, de forma mais clara, a informação chegar, e comunicação é isso, conseguir levar uma informação de forma clara para que o público entenda.

 

AI: Quantos comunicadores já atuam nessa rede? Mitã Xipaya e Beka Munduruku estavam na primeira turma?

Alana: O Mitã e a Beka, por exemplo, são dois jovens que vieram numa turma posterior, com dez jovens de outros povos. E esse projeto já não fala mais sobre Covid, é sobre a importância da participação política e tem um outro objetivo, que é formar jovens para comunicação, mas uma comunicação nessa perspectiva de incidência política. Foi uma formação de mais ou menos dois meses, depois vieram as mobilizações nacionais e conseguimos levar esses jovens comunicadores para a Mobilização Luta pela Vida e para a Segunda Marcha das Mulheres Indígenas, em Brasília. Nós, da rede de comunicadores, produzimos mais de 10 mil registros fotográficos, produzimos todos os dias um podcast resumindo o que estava acontecendo nas mobilizações. E fizemos a manutenção das redes sociais da Coiab, com stories diários, lives e vídeos explicativos do que estava acontecendo em Brasília. E aí após as mobilizações nacionais, a gente vem trabalhando e fortalecendo a rede de jovens comunicadores.

Cacalos Garrastazu / Eder Content

Juma Xipaya, cacica da aldeia Karimaa, na Terra Indígena Xipaya

“É muito importante que todas as barreiras e muros sejam derrubados agora e todos se juntem, porque estamos lutando pelo nosso futuro. Só que isso já é o presente dos jovens indígenas.”

Anuna De Wever, 20 anos, liderança do Movimento Fridays for Future na Bélgica

Episódio em imagens

Cacalos Garrastazu / Eder Content