“A ação humana tem modificado essa capacidade da floresta de resistir ao fogo (…) modificado de várias formas, e uma delas é com o próprio desmatamento”

Ouça Ane Alencar, geóloga (IPAM), em um trecho do episódio 3

Cacalos Garrastazu/Eder Content

UMA FLORESTA EM CHAMAS

Quando os cientistas olham para os incêndios na Amazônia, eles veem muito mais do que nós, que não somos biólogos, geólogos e climatologistas que estudam a natureza e as mudanças climáticas. Para pesquisadores e especialistas, o aumento das queimadas significa maior emissão de gases de efeito estufa. As áreas queimadas significam que a floresta terá mais áreas degradadas. É uma linguagem científica que está presente nos alertas feitos pelos cientistas em entrevistas e documentos, mas que nem todos compreendem.

Entrevista

Nós perguntamos à geóloga Ane Alencar, diretora de Ciência do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), como o fogo degrada a floresta e impacta as metas do Brasil de redução de emissão de gases de efeito estufa.

Amazônia Invisível – O que as queimadas têm a ver com as emissões brasileiras de gases de efeito estufa?

Ane Alencar – O fogo que entra na Floresta da Amazônia impacta a quantidade de carbono que tem nessa floresta. E quando ela é queimada gases do efeito estufa são liberados para a atmosfera.E isso gera mais emissões. O impacto do fogo nessas florestas que foram queimadas pelo menos uma vez na Amazônia representa uma redução de 20% a 25% nos estoques de carbono.

Amazônia Invisível – Por que se diz que as queimadas aumentam a degradação da floresta?

Ane Alencar – Degradação significa uma mudança na estrutura dessa floresta. Então, se a floresta tem muitas árvores grandes, ela vai ter árvores menores porque as árvores grandes vão morrer pela queimada. Ou se essa floresta tem uma diversidade grande de espécies, essa diversidade vai ser reduzida porque só as espécies que toleram o fogo vão conseguir permanecer ali, dependendo da frequência. Então, basicamente, é uma mudança na estrutura, na riqueza, nas funções que essa floresta presta. Uma floresta com menos árvores vai, por exemplo, evaporar menos. Vai jogar menos água para a atmosfera, então vai ter um impacto no serviço ecossistêmico, vai ter menos carbono.

Amazônia Invisível – É verdade que os povos indígenas são os responsáveis pelas queimadas na Floresta Amazônica?

Ane Alencar – Dentro das terras indígenas, o percentual de desmatamento e de fogo é muito pequeno comparado ao que acontece no bioma como um todo. Nos focos de calor registrados em 2019 e 2020, apenas 7% a 8% do total ocorreram dentro dos territórios indígenas, é pouco, E no caso do desmatamento, 5% a 3% do desmatamento que foi registrado no bioma como um todo foi registrado dentro de terras indígenas. E essas terras indígenas são aquelas que tão sendo invadidas, ocupadas com a mineração, com garimpo ilegal, e tendo exploração madeireira ilegal também.

Episódio em imagens

Cacalos Garrastazu / Eder Content

“O sistema de detecção de queimadas aponta tendências de quando vai começar o fogo, não é algo que surge de repente. A partir dos dados mensais é possível prevenir para que o fogo não se alastre, que seja contido por meio de fiscalização.”

– Antonio Victor Fonseca, engenheiro florestal do Imazon

Queimadas não são novidade na Amazônia, mas aumentaram a partir de 2019

Veja a evolução dos focos ativos de incêndio no bioma Amazônia em cada mês no período de 2011 até 2021

Fonte: INPE

Conheça novo progresso (PA), epicentro do dia do fogo em 2019

Nos dias 10 e 11 de agosto de 2019, dados de satélite colhidos pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram um aumento significativo nas queimadas em áreas de floresta em reservas florestais das cidades de Novo Progresso, Altamira e São Félix do Xingu – todas cortadas pela rodovia BR-163.

A notícia de uma ação orquestrada foi publicada no dia 5 de agosto na Folha do Progresso, o jornal local de Novo Progresso, que trazia áudios trocados entre fazendeiros da região em grupos de Whatsapp. Com cerca de 25 mil habitantes, a cidade está no centro de um mosaico de floresta preservada, entre duas terras indígenas da etnia Kayapó, a Floresta Nacional do Jamanxim e a Estação Ecológica Terra do Meio.

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